Seria Saltimbancos a Galinha Pintadinha de meu tempo? E vice-versa

Não é só porque ambos têm animais como protagonistas. Na real, é mais por como encantam a criançada. Nisso, Saltimbancos e Galinha Pintadinha parecem tão próximos. Mas na mensagem que passam, e na forma como passam essa mensagem… aí é outra história, é aí que as diferenças se sobressaem, revelando muito de como as crianças que viam Saltimbancos eram tão diferentes das que hoje veem Galinha Pintadinha.

Há uma tendência de achar sempre que as crianças estão ficando mais espertas. Reparou? É batata ter aquela mãe que chega e diz: “Olha só o Joãozinho, ele já sabe até mexer no iPad. Coloca a Galinha Pintadinha sozinho, acredita?”.

Acho estranho julgarem um bebê como inteligente só porque ele já mexe no iPad tão cedo. Ou seja, por ter afiadas e viciadas habilidades com os dedinhos. Poderiam ter outros critérios. Como sua forma de se articular, andar com facilidade, explorar a casa, capacidade para interagir com adultos e amiguinhos, saber proteger os seus e se proteger de quem não lhe quer bem. Coisas que o Saltimbancos ensina muito bem.

Ouvia tanto o bolachão dos Saltimbancos, com aquela capa icônica com o burro, o cachorro, a galinha e a gata em, acho, aquarela, quando criança que não sei se minha mãe, fã de Chico Buarque que é (ele, o principal responsável pelo abrasileiramento do disco italiano que acabou virando a linda peça infantil) ainda suportava escutar aquilo em repeat. Ao menos o repeat era mais difícil naquela época: tinha de mexer na agulha da vitrola, não só clicar num botão de YouTube e deixar rolar. Revezava Satimbancos com Krig-ha, Bandolo! e o álbum do filme Rambo II. Sei lá porque adorava também Rambo, tinha até uma faixa vermelha que amarrava na testa, uma micro calça camuflada, e me fantasiava como o Sylvester Stallone.

Saltimbancos ensinava tanto. Nas vezes em que assisti à peça (até brincava com uma vizinha de encenar em casa), recordo que ficava curioso em saber por que o barão era tão do mal, por que os animais eram tão explorados, por que os artistas eram tão renegados. Ouço o disco agora, no streaming, e é fácil sacar como de lá tirei muito de meu asco a autoritarismo, a donos absolutos da verdade, a quem explora o próximo, a quem, sem fazer nada, ou só, quiçá, herdando algo ou tendo do seu lado mais munição e/ou dinheiro, suga os outros até o máximo que pode e depois os joga de lado, feito lixo.

Saltimbancos ensina o valor da arte, da rebeldia, da inovação, da liberdade de expressão, da amizade, da força das palavras e de, mesmo criancinha, ter paciência para ver uma peça de uma hora de duração, sem piscar, para não perder a história. Saltimbancos ensina que “Todos juntos, somos fortes”.

O que ensina a Galinha Pintadinha, em seus vídeos de 2 minutos? O que ensina, sei lá, Peppa Pig? Tem lá, é verdade, uma coisa sobre dar valor à família, outra de amizade e por aí vai. Com, veja só, canções antigas que sempre se cantou para bebês, mas apresentadas de forma mais suave. Tem valor? Sim, evidentemente. Mas não vejo, hoje, para contrabalancear a caretice, um substituto para os outros tipos de valores apresentados por Saltimbancos.

Parece-me que as referências infantis de hoje são tão… bobinhas. Em vez de prepararem, mesmo que indiretamente, crianças e pré-adolescentes (não que esses fiquem na Galinha Pintadinha, mas migram para produtos igualmente cartunescos e bobinhos, como o jogo Fortnite) para um dia serem adultos bacanas, focam em forçar os jovens a continuarem jovens para sempre, sem rebeldia, sem ousadia, num efeito Peter Pan aos moldes do século XXI.

Logo podem se transformar em adultos que dão também mais valor à perícia de um amigo com os dedinhos no controle de videogame, ou no teclado do computador, do que a conquistas como as de ser firme em suas escolhas morais, ter empatia pelo próximo, não se curvar diante de qualquer problema da vida etc. A geração Galinha Pintadinha que começa a entrar na vida adulta parece valorizar mais as medalhas ganhas num jogo de videogame de tiro, tipo Call of Duty, do que as ambições mais, sei lá, do mundo real. Como ser bom no que se faz como trabalho, batalhar pelos próprios sonhos que não se resumem aos possíveis de serem consumados com um joystick em mãos.

Aqueles que cresceram com Galinha Pintadinha, Facebook e Instagram começam a chegar, por exemplo, às redações de jornais, revistas, sites, TVs, do jornalismo. Outro dia, comentando com um colega mais velho de, acho, duas gerações acima da minha, ele traduziu esse comportamento com um adjetivo que no século XXI pode não ser bem-recebido, inclusive por mim, e ser assim tido como preconceituoso e tal. Então, definirei de outra forma: é notável nas redações como os(as) jovens-adultos de 20 e poucos anos se quebram tão mais fácil, desistem de algo tão mais fácil, arranjam tantas mais desculpas, do que parecia ocorrer com os(as) jovens-adultos do passado.

Aliás, volte aqui neste blog depois que vou escrever nele sobre a crise que tem abalado o jornalismo (em especial, no Brasil). Ou, ao menos, para diminuir expectativas, de minhas sensações e impressões diante dela.

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