Testemunha ocular do horror

Quando era criança, lá pelos 10 anos de idade, recordo que era comum alguns adultos me falarem, quando compartilhava com eles o sonho de ser jornalista: você será uma “testemunha ocular da história”. A referência – até alguns desses adultos não sabiam; nem eu, naqueles tempos – era o clássico Repórter Esso, programa jornalístico de rádio que certamente era o mais popular de seu tipo no Brasil das décadas de 1940, 1950 e 1960. Empolgava-me com essa de ser “testemunha ocular da história”. Ainda me empolgo. No entanto, o que não contavam é que faria parte da profissão se tornar também testemunha ocular de muitos horrores.

Um dos maiores terrores que presenciei se deu em 2011. Era manhã de 7 de abril, uma quinta-feira, quando me ligaram com a ordem de cobrir o Massacre de Realengo, no Rio de Janeiro. Embarquei no primeiro avião saindo de São Paulo e, logo ao aterrissar, segui para Realengo. Sem muito me preparar emocionalmente para o que encararia.

A primeira reação em frente ao horror é a anestesia. Anestesiei-me ao longo do trabalho.

Não que a primeira visão da escola invadida por um atirador, e que culminou na morte de doze crianças, não tenha sido chocante. Foi um furacão para a mente, revirou o estômago e me fez chorar, disfarçadamente, no momento em que subi a escadaria do colégio e me deparei com os corredores da tragédia.

Olhos, estômago e coração se reviravam em entrevistas com familiares de vítimas, em meio a funerais de jovens vidas perdidas precocemente, ao ouvir a narrativa de sobreviventes. Só que, para seguir com a apuração e escrita, foi preciso a anestesia. Algo dentro de mim me obrigava a encarar tudo como se fosse uma história quase que de ficção. Só assim poderia transpor em palavras aquele horror, sem me desfalecer.

Após findado o trabalho, todavia, o trauma me perseguiu. Pesadelos eram quase diários. Acordava de supetão, com tremores e suor, de madrugada. Tinha medo de assumir o motivo para minha companheira, que levantava comigo ao lado, mas era logo acalmada com um “foi só um pesadelo”.

Não era só um pesadelo. Realengo me fazia ter receio da vida.

Se antes eu já andava olhando pelos ombros nas ruas, comecei a checar por 3, 4, 5 vezes se a porta de casa estava fechada; e, em hábito que passou a ser permanente em minha rotina, passei a imaginar como poderia fugir de cada lugar em que entro (um shopping, um bar, um restaurante), frente a qualquer sinal de perigo. Mais que isso, alimentava medo pela vida de primos, sobrinhos, de crianças que antes eu tinha como imortais – mas que pareciam mais frágeis após ter visualizado a morte de doze delas no lugar que deveria ser o mais seguro de todos, o colégio.

Ser testemunha daquele horror me marcou mais do que quando estive em meio a um tiroteio, novamente a trabalho, entre a polícia e traficantes numa comunidade em São Paulo. Ou quando, fora do trabalho, fui feito de refém durante um assalto numa via movimentadíssima – até hoje sinto dificuldade de passar pela esquina de São Paulo na qual tive uma arma apontada para minhas costas. Por algum motivo que ainda não me foi explicado pelos psicanalistas pelos quais já passei, testemunhar mexeu mais com as entranhas, com o espírito e com a cabeça do que ser alvo de alguma violência e ter a própria vida em risco.

Dois anos antes, em 2009, foi quando comecei a aprender a lidar com esses cenários mais sombrios. Naquele ano, escrevi, ao lado de colegas, sobre a experiências de presenciar 24 horas de trabalho do serviço de emergências da polícia em São Paulo, o 190.

Entre 2008 e 2010, cobri pautas policiais na cidade. Mas aquelas 24 horas foram, certamente, o pico da experiência. Deparei-me com mortos em acidentes de carro; a história de uma promotora que, armada, chegou em casa bêbada e por pouco não matou o marido e o próprio filho; muitos e muitos homicídios, usualmente em pontos ermos da metrópole.

No decorrer da vivência, conversei com diversos policiais. Um deles, do Bope, me contou que o estresse da lida é tamanho que um dia ele se pegou, como civil, fora do trabalho, sacando seu revólver para um indivíduo que o havia fechado no trânsito. “Arrependi-me no segundo posterior. Mas era tanta coisa que passava pela minha cabeça, num momento achei que o cara que me fechou queria me agredir, e acabei sacando a arma. Na verdade, nem agressivo o cara era. Só um mau motorista”.

A experiência ensinou muito. Mas também traumatizou. Recordo que, por uns meses, sempre que alguém que eu amava saía para rua, eu era tomado por um medo que precisava controlar. Se tanta coisa ruim acontecia na cidade em meras 24 horas, o que garantia que não ocorreria com quem eu amava?

A última experiência que tive como testemunha do horror foi, no entanto, distinta. Não menos traumática, porém. Tratou-se do trabalho de apuração e edição em torno do Massacre de Suzano.

Desta vez não fui eu que corri para o local e conversei com familiares de vítimas, ou me empenhei em reconstruir os momentos de terror. Outros colegas, como uma repórter da equipe no qual sou editor, encarregaram-se.

Porém, presenciei o horror em um lugar diferente: a internet. Vasculhei fóruns da web regular e da chamada deep web. Neles, encontrei centenas (quiçá um milhar) de seres tresloucados e imbuídos do mais puro mal.

Indivíduos que, na enorme maioria (todos que vi), identificavam-se como homens, brancos, héteros (e se achavam injustiçados por não ganharem vantagens apenas por assim terem nascido, como era na vergonhosa era colonial; ou mesmo nos EUA de poucas décadas atrás). E que, por algum motivo, declaravam voto em determinado político e que admiravam certos youtubers. Eram esses que celebravam a morte de crianças na mão dos dois atiradores.

Em meios às mensagens de conteúdos que levam à descrença na humanidade, fotos de homicídios, convites a sites obscuros de pedofilia, traficantes de armas em plena ação e tudo mais que faz da deep web o ambiente corrompido que se tornou. Em meio a tanto ódio, raiva, inveja, derrotismo, vício nas facilidades da internet, medo dos desafios do mundo real. Em meio ao que há de pior, encontraram-se os seres que apoiaram, motivaram e depois grotescamente festejaram as mortes de Suzano.

A experiência virtual não foi tão menos traumática que minhas vivências reais. É estranho dizer isso. Mas é uma emoção da mais verdadeira. Um tipo de sentimento, esse da não tão fácil separação do virtual para o real, que há tempos já merece ser alvo de estudos acadêmicos.

O vislumbre daquelas mensagens, fotos e vídeos em sequência me levavam a conceber quão fácil é ceder à loucura. E falo aqui de minha própria loucura, de descrença total, de isolamento, de medo da faceta cruel, obscura, desviada, deturpada da palavra humanidade.

Voltei aos pesadelos, ao receio dos passos que tomo – agora entre pessoas de carne e osso e dentre anônimos na internet. No entanto, o tempo de profissão já me deixou, digamos assim, calejado. Hábil em me anestesiar frente a esses baques.

Ser “testemunha ocular da história” é uma das melhores, mais apaixonantes e mais necessárias profissões. Entretanto, se hoje uma criança sonhadora me questionar sobre essa maravilhosa carreira que adotei, tentarei não me esquecer do aviso: “às vezes, porém, a história não é em nada bela”.

***
Em tempo: a foto que abre este post é de uma homenagem às vítimas do ataque em Suzano.

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Continue a ler: O caso dos grupos de WhatsApp das pessoas de bem

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