O caso da festa da diversidade menos diversa possível

Peguei-me encarando um quadro que retratava uma mulher queniana, negra. Feito por uma pintora brasileira, branca. Os traços realistas eram impressionantes. Apesar da arte, em si, parecer daquelas que você já viu em tantos lugares. Em tantas galerias de paredes brancas.

De canto de ouvido passou uma crítica àquilo: “Como pode uma branca pintar uma negra?”. Era um branco careca que se indignava. Estupidez. De um branco que nunca deve ter ouvido falar de Paul Gauguin. Ou, se ouviu, não ouviu direito.

A pergunta que poderia ter sido feita era outra. Ou outras. “Isso não é muito clichê? Incluindo o argumento furado de ‘lugar de fala’ na arte”. Melhor: “Por que exibimos esses retratos pintados de pessoas negras em um ambiente frequentado apenas por brancos, em um bairro elitista branco, em uma galeria de estilo white cube, onde pessoas brancas se indignam por uma branca pintar uma negra?”. Talvez a pergunta se esvaia naquele white cube por eu ser um hétero branco. Logo saquei.

Está na moda falar de diversidade em lugares não diversos para públicos não diversos. Não é de agora.

No Vale do Silício, CEOs homens, héteros, brancos e brasileiros – tirando a parte de CEO, como eu – cantavam sobre diversidade no palco de um evento. Quem olhava ao redor não achava a mesma diversidade, por mais que se esforçasse na procura, que eles diziam promover em suas empresas tão diversas. E estavam lá seus próprios funcionários, parceiros, representantes, brothers. No público de centenas, três negros. Dois serviam comida. Um era executivo.

Tem aquelas empresas digitais, tech, da nova economia, que tanto adoram exibir a imagem da diversidade. Em propagandas, em releases, em produtos. Mas não em escritórios. Ainda mais em escritórios em países pobres. No Terceiro Mundo.

Enquanto andava pela galeria do bairro branco vizinho do outro bairro branco onde cresci, admirando os retratos de quenianas negras, lembrava também de outra conversa. Com uma daquelas diretoras de RH diverso de empresas boazinhas e diversas do século XXI.

“Aqui não tem preconceito. Só entram os melhores. Independentemente de qualquer coisa, de cor, de origem”.

Quem são os melhores? Aceitam formados em universidades públicas daquelas que basicamente entram apenas ex-alunos de colégios de mensalidade de 5 mil reais ou outros que continuaram a pagar pelo ensino superior, aí por vezes na casa de 7 mil reais por mês; é preciso ter inglês fluente e, de preferência, ainda outra língua estrangeira; vestir-se bem (leia: roupas de grifes) era outra recomendação da diretora de RH diverso.

Estudei numa escola dessas de elite branca. Pais pagam para garantir que filhos jamais tenham competição de igual calibre na vida. Assim, quando são recebidos por um diretor de RH diverso de empresas boazinhas, logo se destacam com o inglês de sotaque estadunidense.

Diverso isso de escolher alunos de famílias ricas? Muitos dos quais sabem bem menos de labuta do que aqueles que suaram a camisa para se formar e tentar se igualar na competição de mercado com os outros para os quais serviram bandejas de privilégios.

Na galeria, passou por mim uma dessas bandejas. O privilégio agora é o champanhe. Branco e borbulhante. Dispenso. Sem deixar de reparar na cor negra do garçom – aposto que alguns outros dos presentes falariam “mulato”, não negro. Principalmente aquele branco careca que não sai de minha visão.

Ao parar de frente para outro quadro de outra queniana negra, lembro dos argumentos de meus amigos brancos que acham tudo isso pensamento de comunista. Amigos que nem sabem o que é comunismo. Nem sabem que o liberalismo é aquele que coloca, na tese, todo mundo em pé de igualdade para depois deixá-los competir.

“Eu suo a camisa. Estudo paca. Não tenho culpa se o pobre não tem motivação”. Certa vez me disse um que não chamo tão assim de amigo. Um que se diz liberal. E que adora me chamar de comunista e admirador do marxismo cultural. Marxismo cultural que já procurei nos livros, nos estudos. Mas que só existe mesmo no Twitter de Olavo de Carvalho e seus olavetes.

Confesso que já tive minhas dúvidas sobre o quão privilégios são privilégios. Só que aí me veio uma ideia. Pegar esses coaches de autoajuda de ricos, os consultores de empresas, os herdeiros que viraram COOs da firma do pai, o careca branco que não parava de reclamar na galeria de quadros de quenianas negras, ou eu mesmo, e propor o seguinte desafio.

Doe tudo, fique zerado (ou em dívida), passe um ano trabalhando como garçom para sustentar uma casa com três filhos, estudando à noite na faculdade, com medo de voltar para casa pois o bairro é perigoso, e agora tente fazer seu primeiro milhão. Melhor ainda, sugira o mesmo para um de seus filhos. Aos 16 anos, trabalhando e estudando ao mesmo tempo, sobrevivendo em uma área violenta, será que teu filho daria conta de fazer o primeiro milhão da família? Confesso: eu não teria resiliência suficiente.

Pensei em comentar sobre minhas reflexões com um tiozão branco, um pouco menos careca, de blazer cinza, camiseta e sapatênis ao meu lado. Ele via uma gravura menor, de uma menina negra, com um cachorro branco, num ambiente que parecia de savana. Acho que ela tentava empinar uma pipa.

Desisti. Se puxasse assunto, desconfiei que logo o interlocutor diria que essa não seria uma reflexão adequada. Afinal, sou branco, hétero e não tenho direito de ter esses pensamentos. Ou quiçá seria mais um a me chamar de marxista cultural. Ou comunista.

Deduzi que logo concluiriam o mesmo se eu comentasse com alguém: “Pô, essa exposição não ficaria mais bacana num lugar com público amplo, acesso irrestrito? Tipo lá no centro. Tipo num Sesc. Tipo onde há negros na plateia”.

Quem seria eu para propor tal ousadia em meio aos colegas brancos que não deixam artistas brancas retratarem quenianas negras? Censurei-me. Estava com preguiça de ter o papo com aqueles brancos. Ou medo. Não soube definir. Brancos que acham que essa coisa de desigualdade, de negro, de diverso, não é papo de brancos, às vezes dá ojeriza, noutras medo.

Senti vergonha de mim mesmo quando raciocinei além. “Será que todas essas minhas considerações não passam de ‘white people problems’?”.  Veio aquele meme na cabeça. O da mulher branca chorando enquanto sofre com ‘white people problems’. Vislumbrei-me com a mão na cabeça, sujando com as digitais as lentes dos óculos Warby Parker comprados em Nova York, preocupado em não desfazer o penteado composto com uma pomada para cabelos que custa 100 reais. Num meme só meu.

(Conto fictício livremente inspirado em fatos reais)

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