Minha ode ao Coringa: não é sobre direita, nem sobre esquerda, mas sobre querer tocar fogo em tudo

Há um desentendimento em relação ao Coringa. Seria ele de direita, de esquerda? Fruto de extremismos? O vingador psicótico de uma sociedade violentada (e abandonada) pelo capitalismo? Estaria sendo só exageradamente usado para salientar um discurso de vitimismo? Teria origem nas ilusões da esquerda com o que poderia ser visto como a loucura de algo como um “fugir para o circo”? Li e ouvi todos esses argumentos. Tudo bobagem.

O Coringa assombra alguns desde que estes alguns eram crianças. Ele é apolítco. Como certa hora disse ele mesmo, pela voz de Joaquin Phoenix, no maestral filme mais recente do personagem, o Coringa não quer iniciar um movimento, não quer ser líder, não é político. Só deseja colocar fogo no circo e depois admirar o incêndio. Sentimento eternizado na clássica cena em que o personagem transforma um monte de dinheiro em uma fogueira, aí quando interpretado por Heath Ledger.

Nos quadrinhos, o Coringa já matou o Robin. Ele já tirou a pele de um homem. Também arremessou um bebê em direção à sua mãe (esposa do detetive / comissário Gordon), e depois assassinou a mulher com um tiro. Distribuiu algodão-doce envenenado para escoteiros mirins. E Alan Moore ainda teve a ideia de fazer com que o Coringa abusasse da filha de Gordon, fizesse com que o pai visse as fotos espalhadas pelas paredes de um labirinto, e depois desse um tiro na espinha dela, paralisando-a pelo resto da vida.

No novo filme, o de Joaquin Phoenix, uma cena da qual eu ainda não vi comentários: a em que tiramos a dúvida de que a “namorada” do Coringa não passava de uma ilusão. Após visitar a mulher real que inspirou a visão esquizofrênica, ele sai do apartamento dela e para a plateia não fica evidente o destino da família que lá vivia, incluindo a criança. Pensar que ele pode ter cometido uma atrocidade com outros de seu próprio convívio o deixa à parte de qualquer discussão política.

Sabe quem não sacou o Coringa? O Jared Leto. Ou, melhor, o personagem que ele interpretou. Um dos grandes erros é que era politizado. Parecia ter um motivo, um lado, uma ideologia. Nada disso é o Coringa.

O Coringa não quer saber de direita ou de esquerda. Ele não quer saber só de ver o circo (ou a floresta, como lembra certa hora o Alfred, em “O Cavaleiro das Trevas”, o filme) pegando fogo. Quer botar fogo no circo e admirar o incêndio.

Não se trata da manutenção ou da revolução da estrutura social e/ou política. Nem é anarquismo, pois este também incute em uma ideologia que, apesar de descartar o Estado, crê em uma sociedade. O Coringa não acredita na sociedade. Por isso, não tem ambição, no sentido corriqueiro da palavra. Ele age em favor do caos.

Esse é o elemento aterrorizante do Coringa. Sua falta de cobiça. Seu desprezo por qualquer sistema humano que não vise somente atender às emoções mais primárias, datadas de antes de qualquer senso de comunidade. Há apenas a “insânia, insânia e só insânia”, bradaria o Dr. Simão Bacamarte de “O Alienista”. 

Todavia, uma insanidade carismática. Encanta, dá repulsa, divide opiniões. Corre risco de virar símbolo e bandeira, mesmo não querendo virar símbolo nem bandeira.

É isso que aflora pavor em quem acompanha o Coringa faz décadas. Seu sorriso representa a proposta do caos. De um vazio primordial sem sentido. O medo tem motivo: não são raras as vezes na história em que a loucura, simbolizada por um palhaço psicopata no poder, conquista a sociedade com seu poder quase incompreensível de sedução. No entanto, a epidemia não se espalha por todos. Há aqueles que não veem racionalidade na insanidade e por isso dela fogem. Há situações, porém, em que estes não são a maioria.

A destruição da sociedade, em violência a qualquer estrutura, naturalmente divide opiniões, que nascem em indivíduos e se transformam em massas. Massas estas que por vezes são só duas, quando o tema é tão insano quanto o Coringa. Nisso o novo Coringa de Todd Phillips e Joaquin Phoenix acertou no alvo. Com sua história apolítica de insanidade e psicopatia, dividiu uma sociedade radicalmente politizada. Ou será que a tela não serviu só de espelho para ver o reflexo de uma sociedade desestruturada que já estava antes radicalmente dividida por algo que paira no ar com cheiro de insanidade?

Está aí uma dúvida que me tira o sono tanto quanto o Coringa que conheço desde que comecei a ser alfabetizado.

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Este conto que escrevi há muitos anos, quando eu tinha acabado de completar 20 anos de idade, conta com personagens levemente inspirados na figura do Coringa: Dia de Circo.

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