A repetição da história: Como um ditador tomou o poder com a força do ódio

A história começa em um país em crise. A nação, antes gloriosa e apontada como promissora, havia caído em desgraça após escolhas erradas, em sucessão, de líderes políticos tidos depois como “inimigos do povo”. A crise econômica, social e política se alastrou, alimentando sentimentos de ódio, raiva e vingança na população. Nesse cenário surge uma figura carismática, de discurso duro, calcado na vontade de revanche da população. Esse novo nome do jogo aponta os culpados pela derrocada do país: as minorias, como negros e gays, os representantes da velha política, os estrangeiros, todos aqueles que contaminariam o sangue do país.

Ex-militar, vindo de uma carreira repleta de decepções – tanto na política quanto no exército, que o considerava não muito apto fisicamente e moralmente –, esse novo autointitulado defensor dos valores familiares e patriotas fala aos cidadãos que considera como “de bem”. Aponta que a nação foi subvertida por manifestantes de esquerda e corrompida pelos políticos de direita. Destaca que existiram conspirações contra seu país, orquestradas por comunistas estrangeiros que pretenderiam levar a economia e a sociedade para o buraco. Esse novo líder apela a táticas populistas para simplificar seu discurso ao máximo e assim convencer uma massa ressentida e com raiva daqueles que não trazem mais tempos de bonança.

Em meio a um ambiente cheio de protestos de rua, demissões em massa de fábricas e greves de trabalhadores, filia-se a um partido menor, de pouquíssima envergadura. Ele promete restaurar a magnitude da nação e assim atrai o voto daqueles que amam odiar tudo aquilo que veio antes dele. Em um primeiro momento, contudo, a figura tem de se contentar com um papel menor na política nacional, angariando, com sua turma, menos do que 3% de presença no Congresso de sua nação democrática.

Passam-se poucos anos e a situação se agrava para a economia e a sociedade. A vitrine da esquerda de seu país é descreditada por muitos e, desunida, brigando entre si, não passa de uma oposição extremamente fragmentada contra quem está no poder. No poder, uma direita vista como suja e vendida. De um lado, um vidro quebrado; do outro, um cheio de poeira que barra sua translucidez. Nenhum dos espectros atrai o povo, que quer mais é saber de como se livrar desses daí todos e, num passe de mágica, resgatar o dinheiro que faz falta na poupança.

O líder, que nesse meio tempo já tinha sido chamado de preconceituoso, racista, e podia ser tido como homofóbico e misógino – apesar de que em seu tempo o mundo infelizmente ainda se preocupava menos com essas duas últimas questões –, aproveita-se da lacuna no poder para buscar a supremacia com seu partido. Outros políticos, tradicionais, observam nele uma forma de resgatarem a imagem que estava no buraco. Por isso, resolvem se associar ao protagonista desta história. Assim fazem também algumas celebridades meia-boca, que veem na estratégia uma forma de ganhar público e dinheiro.

Nesse ambiente estomacal, tal líder, que sempre realizou declarações antidemocráticas e intolerantes, pregando “meter bala” não só em quem teria destruído o país, mas em todos aqueles que fossem diferentes do que ele teria como o “homem ideal”, a “raça ideal”, conquista os votos de em torno de 40% da população.

Por seu amplo apoio, mesmo que não eleito para o cargo máximo do governo, é chamado para ocupar uma posição de força similar. Vira chanceler. Aqueles que abrem as portas a ele não se preocupam pois têm certeza que conseguem controlar suas falas odiosas, aproveitando-se de sua fama e influência. A história (com “H”) prova que não poderiam estar mais equivocados.

No poder, constrói (de início, clandestinamente) e alimenta grupos paramilitares. Esses milicianos começam a exterminar tudo aquilo que julgam como errado, a exemplo de homossexuais, seguidores de religiões específicas, jornalistas, artistas, cientistas, negros, estrangeiros. Afirmam que estariam higienizando a sociedade. Em meio ao caos, um manifestante perde (muito) a mão e comete um crime, incendiando um prédio público. Ao que o chanceler propositalmente exagera e decreta estado de emergência. Ele promete que apenas ele próprio, e mais ninguém, é capaz de restaurar a ordem.

Apoiado no cenário que beira a guerra civil (e de cada vez pior crise econômica), torna-se o verdadeiro dirigente da nação, aparentemente com suporte de uma maioria. Contudo, uma maioria singela, pois a população se mostra dividida. Assim o homem que se apresentava como o antipolítico, o contra tudo que tinha antes, opta por cancelar as próximas eleições, com provável receio de sair derrotado, e se declara como a solução que o povo precisa. Assim vira um déspota – acima, inclusive, de seu próprio partido.

Como ditador, sua primeira medida é oficializar os grupos paramilitares. A segunda, matar opositores à luz do dia. A terceira, executar até mesmo alguns aliados que se mostravam preocupados com para onde corria a carruagem sem freio. A quarta, proibir a imprensa livre e a liberdade de expressão. Não demora para que todos (dentre os ainda vivos) sejam obrigados a até aceitarem uma educação de modelo único, não científica, calcada tão-somente no que o grande líder tem como “correto”.

Logo ele leva a nação à guerra contra todos aqueles que odeia: os estrangeiros, os negros, os gays, as minorias… quase a totalidade do planeta fora de seus limites territoriais. A esses, quer apenas a tortura e a morte, sem receio de declarar que pretende fuzilar dezenas e dezenas de milhares.

Um conflito que logo, logo, se estende além de suas fronteiras geográficas e, dentro de sua nação, leva à construção de prisões de trabalho forçado e nas quais submete as minorias que reprova a experimentos científicos destruidores (inclusive, alega que os está “curando”, em propostas parelhas a algo absurdo como uma “cura gay”), a câmaras de gás, à fome, ao que logo compõe um episódio horrendo chamado pela humanidade de Holocausto.

Até os últimos parágrafos, essa história pode ter lhe parecido deveras familiar, caro colega brasileiro. Em muito se assemelha à ascensão de um ex-militar que se apoia na raiva e no sentimento de humilhação do povo para tomar o poder, por eleição ou não (afinal, ele próprio nega a credibilidade das urnas). Porém, aviso, a saga aqui narrada corresponde, na verdade, à de outro homem, igualmente branco, hétero, ex-militar, xenófobo, com delírios preconceituosos e crente de teorias da conspiração: Adolf Hitler.

Sabe-se bem qual foi o futuro de uma dessas desventuras da civilização. Resta saber para onde vai a outra coisa, ou coiso.

Continue a ler: Brasil: rumo à Idiocracia

12 comentários em “A repetição da história: Como um ditador tomou o poder com a força do ódio

  1. Em que ano esse relato ocorreu? Em que ano estamos agora? Estamos com as mesmas variáveis? Estamos com os mesmos povos?
    A história é repetida? Ela não evolui?
    Parte-se do pressuposto que a nação brasileira não tem direito de escolha? Não é capaz de decidir e arcar com as consequências?
    Foi assim nas últimas eleições. A culpa não é do povo. A culpa é dos políticos que não honram com suas missões.

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    1. Em uma democracia, o povo escolhe os políticos. O povo é responsável por cobrá-los por suas promessas. Cada indivíduo opta por aquele que reflete suas opiniões morais, éticas e políticas. Inclusive, às vezes há a opção de votar naquele que é contra a democracia, mesmo contra o princípio da eleição, das urnas. Por isso, sim, o povo que acabará por arcar com as consequências de sua opção. Um desses efeitos, como a história (com “H”) já demonstrou diversas vezes, pode ser o de não poder votar por muitos e muitos anos. Ou seja, de não poder mais optar por algo. A jornalistas, escritores, artistas, intelectuais, acadêmicos, cabe a reflexão, a exibição de informações que podem auxiliar nas decisões. Mas quem arca com as consequências é o povo, a quem também cabe as glórias e/ou as culpas pelo caminhar de uma nação democrática (mesmo quando o fim acaba por ser a ditadura). Obs.: sim, a história se repete, pois a humanidade se repete, em seus anseios, medos etc.; esse é o princípio de se estudar História, ou Psicologia, ou qualquer ciência social / humana.

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      1. Concordo que caiba a jornalistas, intelectuais, estudiosos, cientistas, esclarecer, orientar, levar à reflexão, mas jamais impor suas opiniões ou induzir como tenho visto. Com uma animosidade, violência e agressividade, que reflete a mesma que presumem combater. Aliás, muito tendenciosa a sua entrevista com o medico indiano ser publicada nas Páginas Amarelas justamente agora, quando a visita se deu há mais de um mês.
        P.S.: Sou sua fã, mas jornalismo parece opinião pessoal.

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  2. Alguém mais sábio que eu já disse que quando esquecemos as lições das tragédias históricas, elas fatalmente se repetirão. E um outro, não sei se tão sábio, disse que os fatos históricos que acontecem uma vez como tragédia, se repetem como farsa. É inegável que podemos como Bergman já viu antes, estar vendo o ovo da serpente de novo. Mas fico pensando se este cenário e estes atores tem o estofo necessário para uma tragédia a la Wagner, completa com coro, atuações extremadas, um dó de peito irrepreensível e uma solista capaz de arrancar lágrimas do mais empedernido expectador ou só é capaz de gerar uma comédia burlesca daquelas bem mambembes e chinfrins que provocam frouxos de riso nos momentos dramáticos e ataques de absoluta vergonha alheia diante dos despautérios dos que estão em cena.

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    1. Espero que o destino seja uma comédia paspalhona e não violenta, não a tragédia. Mas isso só o tempo nos responderá. Obs.: vale lembrar que esse tipo de tragédia costuma acontecer bem mais em países em desenvolvimento, como os da América Latina. A ver como será agora…

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  3. Concordo que caiba a jornalistas, intelectuais, estudiosos, cientistas, esclarecer, orientar, levar à reflexão, mas jamais impor suas opiniões ou induzir como tenho visto. Com uma animosidade, violência e agressividade, que reflete a mesma que presumem combater. Aliás, muito tendenciosa a sua entrevista com o medico indiano ser publicada nas Páginas Amarelas justamente agora, quando a visita se deu há mais de um mês.
    P.S.: Sou sua fã, mas jornalismo parece opinião pessoal.

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    1. Alguns esclarecimentos necessários (apesar de não obrigatórios):
      1. Não há imposição alguma. Felizmente, ainda vivemos em um ambiente democrático onde opiniões não criminosas (logo, em teoria, não podem ser incluídas aquelas racistas, que instigam genocídio, fuzilamento, tortura etc.) são permitidas
      2. Sugiro pesquisar no dicionário os significados de indução. Um deles: “concluir por meio de raciocínio lógico; inferir, deduzir”. Outro: “ser causa ou motivo de; inspirar, provocar”.
      3. A Amarelas, e seu tema, é notícia, quente, antes de tudo. Além disso, aos pormenores, por curiosidade: a entrevista foi realizada em 6/9, logo antes de uma folga minha de uma semana; na outra semana, quando a entrevista estava editada e pronta, Veja publicou um belíssimo especial (sem espaço para Amarelas) focado tão-somente nos 50 anos de idade da revista (recomendo a leitura); na sequência, a Amarelas foi com nada menos do que Mario Vargas Llosa, um nome imbatível como entrevistado; ou seja, a entrevista com Siddhartha Mukherjee (que você resumiu como “médico indiano”, mas que, digamos assim, é um tanto mais que isso) saiu no único momento em que poderia sair.
      4. Ah, por fim, recomendo pesquisar o significado de “tendencioso”. Acredito que acima deixei o cenário bem mais do que transparente (ou seja, oposto de “oculto”).
      Até a próxima leitura

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      1. Como médica especialista em doenças hematológicas e leitora do médico indiano não esperava um viés político-ideológico da entrevista. Esse não foi o objetivo de sua vinda ao Brasil. Por gentileza, seja menos.

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  4. Como médica especialista em doenças hematológicas e leitora do médico indiano não esperava um viés político-ideológico da entrevista. Esse não foi o objetivo de sua vinda ao Brasil. Por gentileza, seja menos.

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    1. Acredito, mesmo, que o próprio Siddhartha Mukherjee deve saber qual foi o motivo da vinda dele ao Brasil. Acho um pouco presunçoso eu ou você definirmos o que ele veio fazer e qual é o pensamento e a intenção do mesmo. Tomo a liberdade de ser menos do que ele próprio ao delinear seu próprio pensamento (obs.: é proposital a repetição de palavras). Longe de mim querer especificar o que Siddhartha Mukherjee pensa ou quer pensar.
      Como é leitora dele, deve ter passado pelos capítulos aterrorizantes sobre eugenia de seu ótimo livro O Gene. Nos quais ele relaciona a eugenia a, digamos assim, muitos vieses políticos-ideológicos (e quem afirma isso é ele, o autor do livro, não eu, o leitor). A partir disso, ele quis e achou importante fazer a análise que, repito, ele fez (não eu). E que tem tudo a ver com o que Siddhartha escreveu em O Gene e o que planeja escrever em um próximo livro (e quem diz isso é ele, não eu, repito).
      Por demais, cansei de falar por ele. Acredito que no espaço concedido para a entrevista o próprio Siddhartha já se pronunciou sobre o assunto. Por isso, paro a conversa aqui (de minha parte).
      Em tempo: aliás, ele leu a entrevista (após publicada, é claro) e viu suas palavras honradas e respeitadas na mesma.
      Até a próxima

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