Quando falei com Alan Moore sobre Watchmen, filmes, política, Paulo Coelho… “Magia é linguagem. Consigo transformar ouro em livro e vice-versa”

Notei a #AlanMoore no trending do Twitter. Saquei que o gênio das HQs (das artes, em geral) completou 66 anos. Moore marcou minha história pessoal e profissional. A leitura de Watchmen, quando eu tinha uns 10 anos de idade, foi a primeira de “teor adulto” da qual me recordo. Em muito responsável pela minha paixão pelas HQs, que se estendeu aos livros, ao jornalismo, à escrita. Entrei na faculdade com uma lista de ídolos os quais um dia gostaria de entrevistar. O mago Moore lá estava. Concretizei a ambição aos 20 anos de idade. Mas foi uma conquista suada – entrei em contato com o editor das obras do inglês; escrevi um longo e-mail mostrando o quanto manjava do trabalho do cara; e assim consegui marcar a conversa com o mestre das graphic novels, que raramente sai de casa, muito menos concede entrevistas. Conquista da qual me orgulho muito e que teve diversas repercussões – foi traduzida para o inglês, pelo que me contaram à época lá na Playboy; um professor obtuso da faculdade duvidou que eu havia conversado com Moore (e provei que sim); inspirou a carta que escrevi para entrar no Curso Abril, após me formar; etc. e tal. 

Enfim, tudo para dizer que deu vontade de homenagear o gênio neste seu aniversário. Fiz isso, recuperando a Playboy do ano de 2006. Digitei a entrevista completa. Hoje, passados todos esses anos, faria diferente, com outra pegada, outras perguntas. Pouco importa. Orgulho-me muito de ter tido esse papo, no qual falamos de Watchmen (hoje indagaria da série, que tá bem ruim), filmes, pornô, contos de fada, magia, as habilidades de feiticeiro de Paulo Coelho, por que Batman e Super-Homem não deveriam ser mais publicados (na visão dele), política, Tony Blair e Bush (e fico a imaginar o que acharia de Trump e Bolsonaro) e tantos outros assuntos – pena que na seção 20P só saíam… 20 perguntas. Leia aí.

(Playboy – seção 20P, com Alan Moore)

O criador de Watchmen e de A Liga Extraordinária destila seu ódio a Hollywood e diz que escrever uma HQ pornô com personagens de contos de fada o deixou bastante excitado, literalmente

  1. Lost Girls é uma HQ pornô que tem como estrelas três celebridades dos contos de fadas: Alice (Alice no País das Maravilhas), Wendy (Peter Pan) e Dorothy (O Mágico de Oz). De onde veio a ideia de mostrar justamente o lado mais sacana das meninas?

Foi irresistível. A intenção no início era focar apenas Peter Pan, mas Melinda (Gebbie, desenhista de Lost Girls e companheira de Moore) sugeriu usarmos três personagens. Alice e Dorothy vieram rapidamente à cabeça. Checamos quando as histórias originais foram publicadas e definimos que as três só podiam se encontrar adultas, entre 1913 e 1914 – Dorothy não seria tão nova e Alice não seria tão velha. A data foi ótima, por ser bem no início da Primeira Guerra Mundial. Colocamos as três na Áustria, que logo seria invadida pelos alemães. A guerra destruindo a beleza do sexo.

  1. Lost Girls tem cenas de sexo bastante explícitas, inclusive uma tentativa de estupro. A polêmica foi intencional?

Tudo é possível na ficção. Logo, podemos colocar Wendy em uma situação de estupro de modo que não seja considerado sexo forçado, no fim. Quisemos levantar essa discussão para que leitores pensassem sobre isso. Mas só é polêmico porque países como Inglaterra e Estados Unidos possuem muito pudor quando o assunto é sexo. Algo que não acontece em lugares mais liberais como, por exemplo, Espanha e Holanda.

  1. Levaram 16 anos até Lost Girls ficar pronta. Como foi trabalhar todo esse tempo tão próximo de Melinda, sua companheira?

O trabalho nos envolveu e nos aproximou. Sem essa obra não estaríamos juntos. Também tivemos que conversar sobre sexo durante o processo. Ótimo para a relação.

  1. Você ficou com tesão?

Claro! É Impossível escrever uma obra pornô sem se excitar. Precisei entrar em contato com minhas fantasias sexuais.

  1. Mudando de assunto, você sente vergonha de ter seu nome nos créditos do filme A Liga Extraordinária, que é um tremendo abacaxi?

Não conheço ninguém que tenha achado aquele filme bom. Deturparam minha história e ainda inseriram meu nome no resultado. Hollywood gasta milhões de dólares em produções idiotas como essa. A Liga Extraordinária custou 100 milhões de dólares, o orçamento de um país de Terceiro Mundo, mas não serve para nada, além de dar dinheiro para seus produtores. Acho que cinema deve ser feito com pouca verba, para instigar a criatividade dos diretores.

  1. Acha que é possível adaptar quadrinhos para o cinema com alguma qualidade?

Contanto que a HQ seja adequada, sim. Tenho de admitir que Hellboy (obra de Mike Mignola adaptada por Guillermo del Toro) é boa. Também gosto bastante de O Anti-Herói Americano, por falar sobre a vida do autor Harvey Pekar, e não de suas histórias. Mas é impossível acontecer algo semelhante com a minha obra, pois não conseguiria transmitir para a tela a essência dos quadrinhos. Ler Do Inferno e A Liga Extraordinária é uma experiência única, e não dá para adaptá-las para outra mídia.

  1. É verdade que você deixa o dinheiro das adaptações cinematográficas para os desenhistas?

Sim. Não quero me envolver com nada que venha de Hollywood.

  1. Watchmen, de 1986, foi a única HQ a ganhar um Hugo Award, prêmio dado à melhor obra de ficção ou fantasia. Isso mudou o modo de a crítica ver os quadrinhos?

Watchmen criou o formato graphic novel como conhecemos hoje. Também mostrou que é possível fazer quadrinhos sem ingenuidade e com profundidade. Várias histórias de super-heróis foram influenciadas por essa obra, porém, não vi nada da mesma qualidade.

  1. Sabia que o ator Jude Law tem uma tatuagem do personagem Rorschach?

Law é um grande fã de minha obra. Mas isso não quer dizer que ele vá participar ou investir em alguma adaptação de Watchmen. A tatuagem teria passado despercebida se ele não fosse uma celebridade.

  1. Depois você escreveu Tom Strong e Supremo, HQs consideradas mais ingênuas. Queria se livrar de Watchmen?

Tenho orgulho dessas obras. Com elas, tentei resgatar o valor original das histórias de super-heróis que eram mais ingênuas e fantásticas. Quando era criança, adorava Super-Homem, mas acho que hoje, com quase 70 anos, ele já passou da hora de tirar um descanso. Grandes editoras insistem em publicá-lo, assim como Batman, somente pelo dinheiro que traz.

  1. Aliás, do que se trata a continuação de A Liga Extraordinária, em O Dossiê Negro, que sairá daqui a pouco?

É a história de dois membros da Liga (Mina Murray e um rejuvenescido Allan Quaterman, personagens das duas graphic novels anteriores) que roubaram o Dossiê Negro, livro que esconde a trajetória da Liga Extraordinária ao longo dos anos. Também há um personagem de Jack Kerouac. É bom deixar claro que esse não é o terceiro volume de A Liga Extraordinária, que estou finalizando e deve ser lançado até 2008.

  1. Esse terceiro volume também se passará na era vitoriana, como os dois primeiros?

Não, a história será em outro período e terá personagens diferentes.

  1. Em 1996, você escreveu o romance A Voz do Fogo. Pretende se aventurar pela literatura novamente?

Sim, estou escrevendo um livro chamado Jerusalem, que focará partes mais obscuras de Northampton, minha cidade natal. Será uma obra extensa, com mais de meio milhão de palavras e 1500 páginas. Exigirá alguns anos para ser concluída.

  1. V de Vingança, história de um terrorista que tenta derrubar um governo totalitário, mostra que, quando o assunto é política, não há ingenuidade alguma em suas obras. Como você avalia os governos de Tony Blair e de George W. Bush, aliados nas guerras do Afeganistão e do Iraque?

(risos) Blair e Bush só fazem mal ao mundo e, daqui a 30 anos, serão conhecidos como os líderes mais incompetentes do Ocidente. Blair é culpado de a Inglaterra estar deprimente. Se eu escrevesse tão bem quanto eles fazem política, não teria emprego quando acordasse na segunda.

  1. Apesar de ter fãs em todo o mundo, você não tem um site oficial. É algo específico contra a internet?

Não lido bem com tecnologia. Sou antiquado, um telefone basta para me comunicar. Além disso, acho que um site seria apenas uma forma de promoção pessoal.

  1. Você é dado à prática de magia. Conhece Paulo Coelho, escritor e mago brasileiro?

É um escritor bem interessante, apesar de não me lembrar do nome de nenhuma de suas obras.

  1. Como você, Paulo Coelho era discípulo do ocultista inglês Aleister Crowley. Ele disse que tem o poder de desaparecer em público, além de fazer chover e ventar. Você também consegue?

Não creio que seja possível. Também não consigo fazer chover ou ventar. Magia é linguagem. Consigo transformar ouro em livro e vice-versa.

  1. É verdade que você pensa em abandonar sua carreira de escritor e se dedicar exclusivamente à magia?

Quando me distanciar da escrita – talvez descanse após terminar Jerusalem –, darei mais atenção a essa área. Mas acredito que linguagem e magia são a mesma coisa. Quando escrevo, estou fazendo magia.

  1. Qual foi a última HQ e o último livro que leu?

Não leio quadrinhos faz muito tempo e nem me lembro do último que vi. Já Edge of the Orison, do britânico Iain Sinclair, foi o último livro (então sem tradução no Brasil, a obra conta a história do poeta inglês John Clare, que escapa do asilo para procurar sua amada e, inclusive, encontra Moore no meio do caminho).

  1. Você sai pouco de Northampton, sua cidade natal. Qual o motivo? Medo de avião?

Não. Isso é um mito. Já fui para outros lugares, como os Estados Unidos – experiência interessante em uma nação idiota. Não viajo porque estou bem e feliz aqui.

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